Para entender melhor o livro de Eclesiastes
Uma das principais mensagens do Eclesiastes é a de que a vida deve ser vivida com intensidade. O livro é uma forte denúncia e um forte conclame à justiça social. Ele nos chama a atenção para isto: “ o que tenho a fazer devo fazê-lo com intensidade”. “É nessa intensidade do fazer que está o sentido da vida”, afirma frei Jacir de Freitas Faria – BH.
Trata-se de um livro muito importante, pois fala sobre reflexões da vida de um povo. Um povo do século III, antes de Cristo. Assim como outros livros sapienciais, ele não reflete sobre Deus em si mesmo, mas sobre o ser humano e sua fé, incomodando várias visões tradicionais da época.
Este livro muito especial, raramente estudado, tem muitas contribuições a dar nos dias atuais, porque contém reflexões a partir da vida. Foi escrito por um orador, uma pessoa da comunidade, daí o nome Qohelet (palavra hebraica que significa comunidade ou alguém que fala pela comunidade) ou Eclesiastes (palavra grega que vem de ekklésia, pertencente ou relativo à Igreja).
A atribuição a Salomão é puramente para dar peso à obra. Salomão foi um rei muito importante, que mandou recolher, a partir de seus sábios, toda a sabedoria de Israel, mas a autoria não é dele, até porque viveu 700 anos antes de Qohelet e do texto ser produzido. Salomão era considerado o patrono dos livros sapienciais. A tradição dos judeus diz que outros livros teriam sido escritos por Salomão, como o Cântico dos Cânticos. No entanto, ele não é o autor e sim, uma pessoa da comunidade.
O contexto do livro do Eclesiastes é a época em que Israel viveu sobre a dominação dos ptolomeus, um grupo herdeiro do Império Alexandro Magno, com uma filosofia que oprimia o povo, marcada por altos impostos, escravidão e trabalho duro. Essa era uma das questões do ponto de vista econômico. Além do mais, naquela época, começava a se discutir, também, a existência ou não da ressurreição após a morte. Paradoxalmente a tantos outros livros bíblicos, sobretudo do Novo Testamento, o Eclesiastes vai na contramão dessa reflexão, mostrando que o que existe é o agora, o real, e nesse real é visto o sofrimento e a escravidão. O que vem depois não se tem certeza.
“O que vejo debaixo do sol são pessoas trabalhando, sem condições de usufruir o próprio fruto do seu trabalho”, (isso é dito várias vezes em Eclesiastes). A interpretação mais corriqueira desse livro é dizer que nele tudo é vaidade, nada é válido, além de ser um livro pessimista na tradução popular. O que não é verdade, pois esse livro é para dizer que o povo sabe das coisas e tem uma outra proposta diante da realidade.
Vaidade? O que é isso no texto? Essa é uma boa questão. O livro começa e termina dizendo: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. No centro, está uma crítica à religião da época, que colocava Deus ausente ou apresentava Deus presente para justificar toda a situação de opressão. É aí que o autor do Eclesiastes questionava: tem sentido o ser humano trabalhar para que uns possam usufruir o fruto do trabalho e outros não? Tem sentido falar de vida do além? O texto do Eclesiastes vai nos dando respostas interessantíssimas.
Na primeira resposta a esses grandes temas, no capítulo IV, ele diz que o ser humano tem que viver em solidariedade. Não basta viver sozinho. Vivendo em conjunto podemos usufruir e encontrar soluções para a realidade. Segundo: a felicidade consiste em comer e desfrutar do produto do seu trabalho. Olha que interessante! Dizer que o trabalhador tem direito de trabalhar, mas também de usufruir o seu trabalho era bastante revolucionário naquela época, já que o império impunha trabalho duro e trabalho sem sentido. Diz, ainda, que na vida há tempo para tudo. Esse é um famoso texto clássico do capítulo III. Há um tempo de nascer, de morrer, de plantar, de colher, de tirar e recolher pedras. O texto traz outra temática importante: viver aqui nesta vida só tem sentido se for vivida com intensidade. No tempo de chorar, choro. No tempo de sorrir, sorrio. No tempo de lamentar, lamento. No tempo de festejar, festejo. No tempo de plantar, planto; e no tempo de colher, colho. Cada tempo e cada momento deve ser vivido com intensidade. Por quê? Porque a morte é certeira. E o que vem após a morte? Não se sabe. Então, viver é viver com intensidade. O resto é pura vaidade. Tudo que não tem sentido, que é opressão e escravidão, é vaidade.
Muitas vezes, as pessoas não conseguem perceber essa dimensão, têm medo de falar de morte. O Eclesiastes traz várias coisas sobre a morte, dizendo: “Ninguém se lembrará de seus antepassados e também aqueles que lhe sucederam não serão lembrados por seus póstumos”. “Não há lembrança durável do sábio nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo será esquecido. O sábio morre com o insensato.” “Tudo caminha para o mesmo lugar. Tudo vem do pó e tudo volta ao pó.” Ele diz também: “Eu felicito os mortos que já morreram, mais que os vivos que ainda vivem”. “Mais vale o dia da morte do que o dia do nascimento.” “Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porque esse é o fim de todo ser humano.” Quando ele diz “ir à casa em luto” significa tomar consciência da vida.
Esses textos nos fazem refletir que temos que pensar na morte e, pensando na morte, se vive a vida com intensidade. A morte confere sentido à vida. A maioria das pessoas não gosta de falar em morte. É como se ela não existisse, e o Eclesiastes segue um caminho inverso desse pensamento. É claro que, a partir do cristianismo, há uma outra consciência, a de que Jesus morreu e ressuscitou. Correto? Só que, antes disso, no tempo do Eclesiastes, a ressurreição ou a vida do além era para justificar o sofrimento aqui na Terra. Ou seja, posso sofrer aqui, mas o que virá depois será bom. Também a Igreja, ao longo dos anos, justificou toda essa teologia do sofrimento, e isso ficou muito forte nas pessoas. Sofro, sofro, sofro, mas depois ganho o Reino dos Céus. O Eclesiastes diz que você não tem que sofrer. Aqui a vida deve ser em abundância. Então, o livro é uma forte denúncia e um forte conclame à justiça social. Ele nos chama a atenção para isto: o que tenho a fazer devo fazê-lo com intensidade. É nessa intensidade do fazer que está o sentido da vida. O Eclesiastes afirma ainda: “Compreendi que não há felicidade para o ser humano, a não ser se alegrar e fazer o bem durante toda a sua vida, e que o ser humano coma e beba deste grande produto do seu trabalho, que é dom de Deus. O resto é pura vaidade”.
Em função do momento em que vivemos hoje, marcado pelo sofrimento do povo, por carências sociais, por corrupção… O Livro reafirma que devemos viver a vida com intensidade, nos pautando pela religião, é claro, para além da instituição Igreja. Ele nos dá todo este sentido: na vida há tempo para tudo e há de tudo na vida. Quem compreende esse mistério vive a vida com intensidade. Viver é a arte de viver intensamente no amor. Morrer também é arte, desde que tenhamos vivido com intensidade. Nesse viver e morrer de nossas vidas há vidas ceifadas pela opressão e pela injustiça social, e essas vidas não podem ser aceitas porque não estão dentro do plano da vida que tem sua origem em Deus.
Ao lermos o livro de Eclesiastes, estamos lendo a palavra de um sábio, amigo do povo simples! “O sábio tem olhos abertos, o insensato caminha nas trevas”, diz Qohelet (Ecl 2,14). Eclesiastes é certamente um livro instigante e desafiador que sempre fascina os seus leitores. É um dos livros mais sábios da Bíblia. Como uma fonte de água cristalina, de Eclesiastes brota uma sabedoria com sabor de humanidade. Crítica fina, sensatez, discernimento, modéstia, ponderação, senso poético, busca do sentido profundo da vida, são todas as expressões que caracterizam o seu conteúdo.
Em hebraico trata-se de , nome que vem de e significa assembléia. Eclesiastes vem de , nome grego que significa igreja, no sentido de assembléia do povo. Qohelet ou Eclesiastes é quem reúne uma assembléia, um grupo que acredita no Deus da vida. “Palavras de Qohelet, filho de Davi, rei em Jerusalém” (1,1). Assim se abre o livro. A tradição judaica e cristã, até o século XIX, identificava o autor de Eclesiastes como sendo o rei Salomão, mas no século XX, confirmou-se impossível ser Salomão o autor de Eclesiastes. Contudo, é possível que o(a) autor(a) de Eclesiastes seja uma pessoa mais vivida, madura e calejada pela experiência da vida.
Eclesiastes não deixa espaço para fugir da realidade. O sentido da vida acontece no provisório e nos momentos alegres vividos. É na intensidade com que se vive cada momento que se pode saborear o valor infinito da vida que é único e inédito, pois não se repete. Só degusta a beleza da vida quem vive intensamente cada segundo. Não se pode alienar-se nem no saudosismo do passado, nem no utopismo do futuro e nem no céu idílico do além. No livro de Eclesiastes não temos palavra de sumo-sacerdote, nem de escriba, nem de fariseu. Quem fala é um “mestre”, um sábio com saber saboroso, com linguagem apurada; alguém de “fé libertadora”, um “intelectual orgânico” que estudou e ajuda o pobre a compreender as causas de seu sofrimento.
A alegria é buscada como algo imprescindível que dá um sentido bonito à vida. “Que beleza!”, parece exclamar Qohelet inúmeras vezes. “Exalto a alegria, porque não existe felicidade maior para o ser humano debaixo do sol, do que comer, beber e alegrar-se. Essa é a única coisa que lhe serve de companhia na fadiga, nos dias contados da vida que Deus lhe concede debaixo do sol.” (Ecl 8,15). A exortação é repetida sete vezes! , seis vezes! cinco vezes! Com um tom pessoal, no qual o uso da primeira pessoa do singular é uma constante, o(a) autor(a) inova na forma de transmitir a experiência libertadora de Deus vivenciada por um povo . Um tom reflexivo e provocante marca todo o livro.
Eclesiastes foi escrito no século III A.C.., um tempo de crise, de transição, uma época de mudanças e de mudança de época. O povo judeu estava sob a dominação dos reis Ptolomeus. Além do tributarismo que explorava o povo com os altos impostos, estava sendo introduzido o sistema de escravidão. Os sacerdotes, em torno do Templo, ajudavam no recolhimento dos tributos. O povo, descontente com a exploração e impedido de usufruir os frutos do seu trabalho, era denunciado na iminência de qualquer tentativa de resistência. Pagar impostos e mais impostos, trabalhar arduamente e sobreviver sob o regime de escravidão era o que se oferecia ao povo pobre. Conseqüência disso, era indignação que não faltava,frente a tanta injustiça. Por mais que a ideologia tentasse dizer que ser pobre e sofrer era algo natural, não podia sufocar os clamores e as rebeliões que se forjavam nos corpos de tantas pessoas. Eclesiastes dá vazão a esses clamores e os transforma em gritos de liberdade. No capítulo 4, ele aborda os problemas da opressão e do choro dos pobres e oprimidos (Ecl 4,1-3), da competição e da concorrência (Ecl 4,4-6), do trabalho exagerado de gente que vive sozinha sem ajuda de ninguém (Ecl 4,7-12). Como um sábio que ouve com todo o seu coração o que se passa “debaixo do sol”, a tarefa de Qohelet é pesquisar, tentar conhecer, mas não se deixa alienar pelo sistema corruptor vigente. Olha para a vida, para os acontecimentos e toma posição.
Eis a sentença mais solene, lapidar, é a “quinta-essência” do livro de Eclesiastes: (Ecl 1,2; 12,8). Assim se abre e se fecha o livro. O que o(a) autor(a) quis transmitir com esta afirmação categórica? Não se trata de um resumo do livro nem de uma tese antecipada. Trata-se de uma provocante introdução ao livro. É a porta de entrada. É necessário entrar casa adentro e freqüentar todos os doze capítulos para se perceber o testemunho de um místico que reflete acerca da vida. Logo, não podemos, ao ler no início do livro a expressão “vaidade das vaidades”, concluir: Eclesiastes defende que tudo é vaidade. Na Bíblia hebraica hebel aparece 73 vezes, sendo 38 vezes em Eclesiastes (mais 2 vezes em Eclesiástico 41,11) e é, normalmente, traduzido por vaidade. O sentido fundamental é “sopro”. Em Ecl 1,2 não indica a ausência de significado, mas a transitoriedade do que acontece no mundo humano.
“Tudo é vaidade!” Este “tudo” abarca o quê? Não se trata de “tudo” no sentido absoluto de que não há exceção. Certamente o autor não quer afirmar que não exista nada que não seja vaidade. Trata-se do humano, de determinadas construções históricas precisas. Provavelmente, se refere somente às relações e estruturas humanas criadas historicamente e que eram experimentadas pelo (a) autor(a) como sendo “vaidades”. Assim, se restringe a algo que sucede “debaixo do sol”. Talvez possamos dizer no espírito de Eclesiastes: Tudo é vaidade, mas a vaidade não é tudo.
A seguinte pergunta farol é programática no livro de Eclesiastes. Algo semelhante se ouve no meio dos pobres: “Que adianta trabalhar feito burro, ganhar um mísero salário, quando uns magnatas roubam malas e mais malas de dinheiro e vivem folgadamente? Somos trouxas; levamos tapa na cara o tempo todo. Deixamos os espertalhões andarem montados em nós como se fôssemos burros de carga. Vale a pena viver assim?” (Ecl 1,3) pergunta, indignado, o desempregado que não tem dinheiro para comprar o pão para seus filhos. Qohelet não rodeia. Vai ao cerne da vida e pergunta sobre o sentido do viver sob opressão. Tem sentido? Vale a pena?
Como conhecer o tempo oportuno para tudo? É possível criar tempo oportuno? Eis a questão central de Ecl 3,1-15. O texto faz referência a um sentido teleológico, finalístico. Não se trata de tempo X ou tempo Y. Trata-se do tempo X e do tempo Y. A sabedoria está em discernir qual é o tempo justo para tal ação. Não basta que a ação seja boa, é preciso que seja no momento oportuno, nem antes e nem depois. É para se ter a sabedoria de agarrar a oportunidade quando ela aparece na nossa frente. Ou mesmo construir o tempo propício. Faz história quem age no momento adequado e quem vivencia o sentido mais profundo de cada momento.
Qohelet diz que Deus inoculou em tudo a eternidade, isto é, eternidade inclui o tempo que o ser humano experimenta e o transcende. O divino passa pelo provisório. Qohelet teve uma experiência da (e)ternidade a partir das relações mais simples da vida: comer, beber, alegrar-se, amar, trabalhar, descansar.
Exorta Qohelet. “Comer e beber”, (Ecl 9,7), além de ser uma necessidade e direito humano, é uma metáfora do viver bem. “Pão e vinho” roubado, conseguido dentro da lógica e estruturas capitalistas, sem a fadiga do trabalho, não pode ser fonte geradora de um coração feliz. Em Eclesiastes, denuncia-se, veementemente, a exploração do trabalho humano que gera frutos, os quais são usufruídos por outros. Qohelet defende respeito à dignidade humana de cada pessoa que deve e tem o direito de ganhar o próprio alimento com suas próprias forças. Subliminarmente, assistencialismo também é questionado.
A brevidade da juventude (Ecl 11,10b) não deve desencorajar o jovem na busca da alegria. Qohelet não exalta toda e qualquer alegria, mas uma alegria vivenciada como dádiva de Deus.
Resume o livro de Eclesiastes (Ecl 12,13). Esta expressão sugere que Deus deve ser reverenciado, levado a sério, respeitado. Seu nome não deve ser usado em vão. Não pode ser manipulado e nem enquadrado em esquemas religiosos que diminuem a grandeza e a força do amor de Deus. Ao dizer “tema a Deus!” Qohelet parece sugerir “deixe Deus ser Deus na sua vida”. Para Qohelet, Deus é extremamente presente e, ao mesmo tempo, extremamente ausente. Quer ver o ser humano cultivando sua autonomia, sentindo a companhia terna de Deus, mas não quer jamais tutelar as pessoas carregando-as nos braços e, muito menos, ser fonte de pavor.
Eclesiastes é um livro incômodo, com um pensamento complexo e provocador. Ensina-nos a amar a vida, aceitar os limites e sentir-nos envolvidos pela beleza, luz e força divina, existentes em cada um de nós e em todas as criaturas.
Enfim, tudo parece vaidade, mas não é. Nem tudo é vaidade. Assuma a provisoriedade e a fugacidade de todos os segundos da vida. Não queira fugir, nem para o futuro, nem para o passado, nem para o além. Abrace cada segundo da vida como uma dádiva de Deus e da vida; viva intensamente; “coma e beba gozando os frutos do seu próprio trabalho; seja ético; não vivas às custas de outros, e, assim, serás feliz.
Obs: Para entender melhor o livro de Eclesiastes, sugiro o livro VV.AA., CEBI, São Leopoldo, 2006. Frei Gilvander Moreira
(Texto adaptado a partir de entrevista de Frei Jacir de Freitas Farias – BH e de estudo de Frei Gilvander Moreira).
Adaptado pela Professora Regina Célia Peccini F. Silva
Indique para um amigo
Se gostou indique para um amigo. Divulgando você também estará evangelizando!



4. dezembro 2009 at 08:57
bom dia.Acabei de despertar pensando na palavra eclesiastes.Há muito tinha a curiosidade de saber do que se tratava e fiquei bastante impressionada de constatar que um livro escrito no século 3 a.c. ainda tem muito haver com os dias de hoje e com os que estão por vir.estou imensamente grata por ter encontrado um material excelente,com certeza divulgarei para os amigos. um forte abraço!
4. janeiro 2010 at 14:47
Boa tarde Elizabeth fico muito feliz por trazer algo de bom para sua vida atravéz do meu site.
Que Deus esteja sempre com você e toda sua família.
21. junho 2010 at 18:57
Esta é uma das várias linhas de entendimento sobre a data do livro e sua autoria, mas talvez não seja a verdadeira. É muito importante procurar conhecimentos em várias fontes, para depois se tomar um posicionamento. Negar a autoria do livro ao Rei Salomão, é fácil, difícil é dar o nome do autor. Minha cara Elizabeth, procure ler numa literatura diversificada, procure saber sobre ermeneutica e oimilética. Só Jesus Cristo é o Senhor.
10. julho 2011 at 20:29
Amo eclesiastes, adorei aprender MAIS AQUI